Page 199 - SSP
P. 199








SIMPÓSIO 3 MESA 1 PALESTRANTE 2


PROF DR JOSÉ FERNANDO PEREZ


que era um desafo fascinante e na época eles presas de capital de risco não têm apetite para
disseram: “Estamos procurando alguém com riscos dessa natureza. Você acaba dependendo
credibilidade”. Eu respondi: “Olha, não sou nem muito da fgura do investidor ­anjo, que é aque­
médico nem biólogo, vocês topam? Eu posso dar le que compartilha a visão. Eu consegui dois
minha contribuição, usar o meu conhecimento”. investidores por meio de contatos que tive no
E de fato consegui investidores brasileiros que meu tempo de FAPESP. Um deles é o Dr. Joveli­
compartilharam a visão da importância desse no Mineiro Filho, produtor de gado bovino, que
trabalho. E é importante mencionar essa parce­ cofnanciou um projeto de genoma do boi com
ria com o Instituto Ludwig, porque ela foi fun­ a FAPESP, ou seja, uma pessoa que acredita em
damental para o início do processo. tecnologia, em pesquisa. O outro foi o [Emílio]
Também é importante ressaltar a questão da Odebrecht, uma fgura fascinante. Fui almoçar
biotecnologia na área da saúde humana. Tem um com ele, comi bem, bebi bem, e quando termi­
livro interessante, chamado Science Business, nou o almoço ele falou: “Professor, eu vou estar
de Gary Pisano, professor da Harvard Business com o senhor por quatro razões, e nessa ordem”
School, em que ele estuda um caso específco da – ele é engenheiro, cartesiano. “Primeiro, por­
biotecnologia na área da saúde humana. Se você que eu confo no senhor” – ele é até crítico com
lê esse livro, não investe um centavo em biotec­ quem vai empreender. “Em segundo lugar, con­
nologia na área de saúde humana, porque des­ fo no seu parceiro, o Instituto Ludwig. Em ter­
cobre que o investimento nessa área tem de ser ceiro, porque é importante para o Brasil ter isso
maior, o retorno desse investimento leva mais aí, e, em quarto e último lugar, porque pode ter
tempo e, terceiro e mais importante, existe um um bom negócio aqui”.
grau de incerteza muito grande em relação à con­ De fato, os dois estão investindo desde o
clusão do projeto. O autor nem chama de “risco começo, e foram os únicos investidores até dois
tecnológico”, chama de “incerteza”, porque risco anos atrás, quando houve um aporte também do
é algo que você até consegue quantifcar. BNDES, que agora é sócio da empresa. Bem, o
É diferente de um projeto de um avião, no que a Recepta está fazendo? As primeiras foram
qual os elementos de viabilidade técnica do pro­ pesquisas de anticorpos, que foram licenciados
jeto estão defnidos a priori. Você sabe que, dis­ para a Recepta pelo Instituto Ludwig, que deti­
pondo de boa engenharia, o seu avião vai voar. nha a propriedade intelectual. Agora a Recepta
Na biotecnologia, você pode dispor da melhor tem a propriedade intelectual exclusiva interna­
engenharia possível e só descobrir que seu avião cional, e para fazer o desenvolvimento clínico.
não vai voar na hora em que o coloca na pista Um desses anticorpos está em fase 2, o REB­
para decolar, tendo gasto um volume expressivo MAB100. Atualmente, está sendo feito um teste
de recursos. clínico para tumor de ovário que deu resultados
Então, na realidade, esse elemento de incer­ muito interessantes, e tem outro teste clínico
teza inibe muito o investidor, e aqui no Brasil é sendo conduzido agora para tumor de mama,
ainda mais complicado, porque de fato as em­ um projeto liderado pelo Instituto do Câncer do

199
   194   195   196   197   198   199   200   201   202   203   204